Cie Anania / Taoufiq Izeddiou (Marrocos)
- DURAÇÃO 60'
- INDICAÇÃO ETÁRIA Livre
- LOCAL Teatro Oi Futuro Klauss Vianna
- DATA E HORA
- 29 e 30 de Out às 21h
Notas sobre o trabalho
Não é habitual cruzar a soleira da porta de uma casa no Marrocos sem pisar nela com o pé direito e dizer “Bismillah”. Dessa maneira, a pessoa cumprimenta e abençoa seu anfitrião. Entretanto, existem outras soleiras no meu país. Soleiras cujos cruzamentos trazem considerações para além da tradição. Clubes privados como boates e bares se multiplicaram nos últimos anos. Localizados geralmente em porões, esses lugares requerem certas habilidades… São poucos passos e você pode se encontrar na rua, onde não cabem espanto e deboche. É necessário ser impecável. A polícia está sempre por perto.
Embora, muitos marroquinos – homens e mulheres – levem uma vida dupla que revela uma hipocrisia social, um homem pode ser considerado um homem de respeito aos olhos de seus familiares durante o dia enquanto à noite ele dança com uma jovem garota de outra cidade – se ela não for uma prostituta.
E ainda assim, o que vejo nesse homem, nesse momento, é um sorriso, uma pausa das convenções – uma liberdade. Essa liberdade, mesmo o perfume dela, é o que procuramos nesses locais escondidos. De botecos a noitadas VIP, somos levados a lugares onde corpos revelam-se a si mesmos e aos outros e onde drogas, álcool e prostituição não são banidos na entrada. Uma forte sensualidade invade esses espaços: As pessoas vêm aqui para se embebedar, dançar, se travestir e dar uma geral. O mundo interior de cada convidado precisa ser invisível no exterior. Nas ruas, a exibição do status profissional ou religioso prevalece e os corpos param de ser eles mesmos. Nos porões, todavia, eles não se escondem mais: eles ousam, eles vivem, eles se divertem. E se esquecem de tudo. Poderia ser qualquer lugar no mundo… Mas é o meu país, o Marrocos.
Eu proponho, através da arte da dança, fundir um olhar sobre essa dualidade e questionar a existência da coreografia contemporânea marroquina. Nós que estudamos na França, na Europa e em outros lugares, não queremos aparecer como marroquinos imitando protótipos ocidentais, mas também não queremos apresentar as danças tradicionais com um exotismo oriental que não leva em conta nossa pesquisa no exterior. É necessário assim, criar novos trabalhos que combinem nossos próprios gestos, nossos próprios passos e nossa herança com nosso entendimento da dança contemporânea.
Para “Âataba” (o limiar), eu convidei cinco bailarinas: quatro marroquinas e uma francesa. Espero que seus diferentes históricos coreográficos resultem em ambos: confrontação e surpresa. Uma cantora oriental irá acompanhá-las e também uma trilha sonora feita com gravações em boates, vozes de líderes Árabes ou Africanos e sons de uma corda amplificada. Haverá também a presença de “bendirs” no palco, pandeiros que existem quase em todos os lugares do mundo.
Então, qual é a identidade dessa dança? Ela está em processo de nascimento em meu país. O Marrocos sempre esteve no cruzamento de várias influências: os Berberes com suas danças, os Árabes com o Islã, depois a Espanha e os judeus e, os escravos chegando da África…
E eu: primeiro um boxeador, depois um estudante de teatro e dança, agora um bailarino. Treinei e estudei na Europa… Nossa identidade está emergindo no ponto de encontro dessas influências passadas e novas.
A história desses corpos, escondidos de dia, e em busca de liberdade à noite, será contada pelas mulheres: bailarinas que podem carregar aqueles seres através de todas as suas transformações, suas alegrias e sofrimentos, sua violência, seu medo, seus desejos e mostrá-los ao espectador – no limiar de uma nova visão.
Taoufiq Izeddiou



