Jefta van Dinther/SURE BASIC (Holanda)
- DURAÇÃO 50'
- INDICAÇÃO ETÁRIA Livre
- LOCAL Funarte MG
- DATA E HORA
- 01 e 02 de Nov às 19h
Kneeding é uma coreografia para três homens. Explora as relações entre o que acontece dentro de um corpo e fora dele: como os processos internos se manifestam externamente e como as influências externas afetam dentro. A palpável realidade da matéria – o corpo dançante e seus ambientes táteis – tudo isso combinado com a realidade imaterial da imaginação. Dessa maneira, Kneeding negocia fisicalidade e psicologia, entre “amassar” e “necessitar”. Com o movimento contínuo de “um corpo que bomba”, Kneeding traça seu caminho através do entrelaçamento de espaços da mente e do resto do corpo, sustentando um ambiente constantemente instável. Dançando, os bailarinos desafiam sua própria auto-percepção, gerando uma introspecção que desperta forças centrípetas e centrífugas. Sentados em uma disposição que ocupa os três lados em torno dos bailarinos, os espectadores se tornam testemunhas desse esforço. Eles são cúmplices no ato de produzir e coletar imagens que vão surgindo, e às vezes, estão mesmo literalmente implicados nos eventos que se materializam entre os bailarinos.
Críticas
Exploração cativa de partes do corpo e da dança
Não há uma única linha reta no conceito de Kneeding, coreografia de Jefta van Dinther. Durante 50 minutos é como se os três bailarinos virassem seus corpos do avesso, examinando-os através de movimentos peculiares. Os músculos se amassam, rolam e mudam a concepção de cada parte do corpo num fluxo contínuo que também inclui os músculos da face.
O público senta-se em três lados do palco, perto dos bailarinos e com uma perspectiva aberta entre os espectadores. Às vezes é tão divertido estudar as reações dos espectadores quanto estudar a coreografia em si mesma. Porque é impossível não ser afetado por ela em sua forma física distinta. O tronco longo de Jefta van Dinther, a mímica expressiva de Frederic Gies e o torso contorcido de Thiago Granato enviam sinais diretamente para dentro do corpo do espectador.
Kneeding é um jogo de palavras entre “amassar” e “necessitar”. A peça é uma investigação de algumas idéias específicas, onde método e sistema geram a própria coreografia. O processo se transforma na performance.
Mas ela está longe de algo seco; e sim muito próxima de algo não usual. Os bailarinos interagem através de algumas formas de acordo e olhares, mas mantêm suas próprias expressões individuais. Por alguns breves momentos eles se tocam curiosamente: costas, joelho.
Em alguns momentos, você pode discernir o que é ironia, quando o trio se move diagonalmente em câmera lenta, evocando atletas tensos na busca de seu objetivo.
Entretanto, os movimentos não são ilustrativos, mesmo que possam ser lidos como grotescos. Porém depois de uma pausa curta contra a parede, quando a trilha de David Kiers torna-se mais forte e mais ritmada, os bailarinos de repente começam a se comunicar através de gestos e bocas que formam palavras sem sons, voltadas para nós e entre eles.
Kneeding deixa as ondas de movimento se deslocarem dos pés para cima, do primeiro possível passo intuitivo até que atinja um tipo de intelecto que permanece dependente da ferramenta física do bailarino.
O trio curiosamente lida com o interior e o exterior do corpo em cada movimento usando um conceito da peça que consequentemente os fazem se aprofundar em questões. Em Weld (teatro em Stockolmo) a dança está sendo reexaminada – é cativante e fascinante.
Uma masculinade com a qual não estamos acostumados
Kneeding é uma combinação de duas palavras: needing (necessitar) e kneading (amassar). Os três homens na coreografia de Jefta van Dinther (inclusive ele mesmo, que também dança) dão expressão a essas duas palavras no palco. Vestidos de jeans e camisetas comuns com os pés descalços no chão de madeira, eles se movimentam como se estivessem em transe, lutando contra uma força invisível, começando em silêncio e lentamente ficando mais e mais frenéticos. Como se tivessem uma besta dentro de seus corpos que não quer abandoná-los.
Os homens se viram do avesso, movem-se para frente e para trás, se arrastam pelo chão – perto, muito perto do público. O som emerge dos corpos e a falta de ar pode ser ouvida claramente no silêncio total, o que provoca gargalhadas do público aqui e ali. Quando um dos homens dança na minha frente, eu não sei aonde focar meu olhar e acho que isso é exatamente o que van Dinther quer: o fato raro de se estudar o homem como objeto. Desafiar nosso olhar para vermos o corpo masculino de uma maneira com a qual não estamos normalmente acostumados. Há tensão sexual, na forma como eles se movem em direção uns dos outros, mas é muito mais sobre a exploração que fazem uns dos outros do que sobre nos questionar, questionar o público.
Quando os bailarinos começam a se mover em direção uns aos outros, eles também começam a se explorar, mas é mais curiosidade do que sexualidade. Como espectador, eu penso sobre sexo, isso é inevitável e ao mesmo tempo interessante. De repente, a performance deixa de ser sobre os bailarinos e passa a ser sobre mim mesmo. A dança propõe várias questões para nós enquanto espectadores. Isso também é o melhor de Kneeding: desafiar nossos conceitos sobre masculinidade.
Finalmente, é sobre resistência, a luta interior. A dança torna-se um símbolo para o desejo. E se torna ainda mais efetiva quando os bailarinos desafiam nosso olhar. Eles querem que vejamos sua dor, sua luta. A dança se transforma numa expressão de uma masculinidade com a qual não estamos habituados.
Para se agarrar à realidade encenada
Finalmente, o método de se auto-amassar é introduzido por Jefta van Dinther na dança…Com essas conquistas TQW veio para o topo em seu primeiro dia de Parcours an den Grenzen zur Berührung in Tanz und Performance mit dem Titel Scores #1: touché… o irônico trio masculino de Jefta van Dinther se encaixa perfeitamente: o corpo masculino em crise e como uma caricatura do herói patriarca. Em Kneeding (um jogo de palavras com os termos em inglês kneading e needing) o homem se encontra num processo de transformação. Ele se vira do avesso. Fazendo isso, todos as caricaturas da representação masculina tornam-se visíveis como um último gesto de rebelião.
Helmut Ploebst, DER STANDARD 20.04.2010 Áustria.
Jefta van Dinther (SE/NL) é coreógrafo e bailarino que trabalha entre Amsterdam, Stockholm e Berlim. Ele cresceu na Suécia e depois mudou para a Holanda e se graduou em Amsterdam School of the Arts (MTD) em 2003. Jefta cria performances sozinho e em colaboração com outros artistas. Seu trabalho de dança inclui The Blanket Dance (2011), que foi criado em colaboaração com Frederic Gies e DD Dorvillier. A performance anterior Kneeding – uma coregografia para três homens – estreiou em Amsterdam em 2010 e ainda está em tourné. Em 2009 ele fez o quinteto The Way Things Go – uma escultura de causa e efeito que se move vagarosamente. Juntamente com Mette Ingvartsen ele criou a performance IT’S IN THE AIR. Atualmente ainda trabalha e viaja em tournés em performances de Mette Ingvartsen, Xavier Le Roy and Ivana Muller. Trabalhou como performer com vários coreógrafos, incluindo Frederic Gies, Keren Levi, Leine/Roebana, Pere Faura, Carolien Hermans, Martin Butler and Inari Salmivaara. Ele ensina coreografia, compartilhando seus métodos de trabalho e práticas. Durante 2008 e 2009 foi um dos participantes do projeto 6 Months 1 Location (6M1L), um experimento em educação, produção e pesquisa no Centro Coreográfico Nacional de Montpellier. Juntamente com outros participantes do 6M1L ele foi co-curador do In-Presentable Festival 2009 em Madrid e também organizou o The Living Room Festival. Atualmente trabalha em um novo projeto com a designer de luz Minna Tiikkainen que estreiará no Weld em Estocolmo em dezembro de 2011. http://www.jeftavandinther.com
Frédéric Gies (F/DE) é coreógrafo e bailarino. Vive e trabalha em Berlim, e faz parte do coletivo Praticable, juntamente com Isabelle Schad, Odile Seitz e Frederic de Carlo. Suas peças recentes incluem Album (Praticable) (2009) e Dance (Praticable), que existe em uma versão solo (2006) e em uma versão coletiva (2008). Ele publicou o “score” de Dance e textos de Bojana Cvejic, Petra Sabisch, Simon Hecquet e Sabine Prokhoris (www.dancepraticable.net). Juntamente com Andrea Keiz ele fez também um DVD de trabalhos em vídeo que é parte do projeto Album (Praticable). Em colaboração com Jefta Van Dinther e DD Dorvillier criou The Blanket Dance (2011), com Alice Chauchat, ele criou The breast piece (Praticable) (2007), e juntamente com Manuel Pelmus, Bruno Pocheron e Isabelle Schad, a performance Still Lives (2006).
Thiago Granato (BR) é coreógrafo e bailarino, que vive e trabalha na Europa desde 2008. Atualmente colabora com os artistas da dança Mathilde Monnier, Jefta van Dinther, Énora Rivière, Cecília Bengolea, François Chaignaud, Sandro Amaral, Marcela Donato e Neto Machado. É colaborador internacional do Festival Contemporâneo de Dança de São Paulo. Formado em dança clássica, moderna e contemporânea. Desde 1998, desenvolve seu próprio trabalho como coreógrafo. Entre seus trabalhos estão: ALGODÃO (1998) e ONDE ESTÃO OS CAVALEIROS (2000), em colaboração com Simone Mello, DOBRA (2004) em colaboração com Laura Samy, PLANO B (2008) em colaboração Cristian Duarte, WE ARE NOT SUPERFICIAL, WE LOVE PENETRATION (2008) e TOMBO (2009). De 2000 a 2008 desenvolveu trabalhos em colaboração com coreógrafos brasileiros tais como: Adriana Grechi, Lia Rodrigues, João Saldanha, Cristina Moura e Thelma Bonavita. Participou do projeto Ex.e.r.ce 8, coordenado por Xavier Le Roy, no Centro Coreográfico Nacional de Montpellier, dirigido por Mathilde Monnier.
David Kiers (NL) formou-se pelo programa de graduação Sonology no the Royal Conservatory in Den Haag, Holanda. Nos últimos anos seu foco principal como artista de som e imagem tem sido a colaboração com Gideon Kiers e Lucas van der Velden no coletivo theTelcosystems moniker (http://www.telcosystems.net). A pesquisa desenvolvida por eles por uma linguagem pessoal no mundo abstrato do som e da imagem gerados por computador produziu uma sequência, instalações e curtas metragens que têm sido mostrados e indicados à prêmios mundo afora (Sonar/Barcelona, de Appel/Amsterdam, International Short Film Festival/Oberhausen, Boijmans van Beuningen/Rotterdam, New York Digital Salon, ArsElectronica/Linz, Cyberarts Festival/Boston, International Film Festival Rotterdam, Transmediale/Berlin, Wood Street Galleries/Pittsburgh USA). Em 2009 Telcosystems recebeu o prêmio Gus Van Sant para melhor filme experimental, para o curta do coletivo Loud things. Além disso, ele compos trilhas para várias produces de teatro e video como as peças do Panic Production: Dead Meat (’07) e Private Dancer (’08),e ainda Skubriocha, uma performance poético sonora com Valeri Scherstjanoi, encenada durante o International Poetry Festival em Berlim em 2007.


