TheatreWorks (Singapura)
- DURAÇÃO 110'
- INDICAÇÃO ETÁRIA 16 anos
- LOCAL Teatro Sesiminas
- DATA E HORA
- 29 e 30 Out às 19h
Aparas do Século 21
Eles dançam para contar a estória de suas vidas sob o regime de Pol Pot. Quatro artistas, três bailarinas clássicas e um mestre dos fantoches se encontram para criar o espetáculo que mistura dança, música e teatro de bonecos. O projeto foi uma iniciativa de Ong Keng Sen, o diretor artístico do TheatreWorks, uma companhia de teatro contemporâneo de Singapura. Keng Sen está interessado no papel das tradicionais artes asiáticas e suas evoluções dentro das sociedades modernas.
O espetáculo criada com os artistas cambojanos será encenado em junho de 2001 na Universidade de Yale. E depois seguirá para Phnom Penh e Battambong, no local de um campo de trabalho desativado do Khmer comunista. Num país onde a prioridade parece ser dada à proteção de templos centenários e não à herança existente, esses artistas lutam para evitar que a cultura Khmer desapareça com as gerações atuais.
Uma reportagem de Fanny Landrieu.
Sentada entre as raízes das árvores que parecem engolir o templo de Ta Phrom, um bela mulher de quarenta e nove anos, fala de sua vida no exílio, no reino de terror de Pol Pot. Seus olhos se enchem de lágrimas, ela tem um olhar ausente em seu rosto e sua voz se engasga com as lágrimas. Apesar de suas emoções, ela fala sem parar: “Quando os comunistas invadiram Phnom Penh, eles ordenaram que as pessoas deixassem a cidade de uma vez e se mudassem para o campo. Minha família e eu embalamos alguns poucos pertences e decidimos caminhar pela beira do rio para sobreviver com a pesca e com o arroz que conseguimos levar. Mas as reservas de arroz se acabaram rapidamente e minha mãe teve que vender suas jóias para comprar comida. Estávamos em um estado de ignorância, assustados e famintos”. Ela segue com sua estória e não poupa detalhes de sua existência diária, medos e emoções. “Havia também alguns poucos momentos de alegria, como quando meu marido conseguiu trazer um pouco de mel que havia escondido – isso poderia ter lhe custado a vida – mas ele estava cuidando de mim. Então fiquei grávida. Meu marido trouxe água do rio para que eu me lavasse no dia em que supúnhamos ser o parto. Um soldado ameaçou matá-lo se o fizesse novamente. Decidimos não manter o bebê. Abortar foi uma decisão difícil, mas teria arriscado minha vida e a de meu marido se não o fizesse. Não havia lugar para os fracos”. Bunthom sobreviveu. Hoje ela ensina dança na Escola de Belas Artes e agora, separada de seu marido, cria seus três filhos sozinha. Ao contrário do templo de Ta Phrom onde as raízes das árvores tentam destruir as fundações da antiga construção, Bunthom tenta reconstruir sua vida, apesar das feridas que seu passado deixou para trás.
“Pela primeira vez em dez anos, temos autorização para contar nossas estórias e isso ajuda a construir um senso melhor de paz entre nós” diz uma das artistas participantes.
Bunthom, Em Theay e Thong Kim Ann, as três bailarinas clássicas que foram treinadas no Palácio Real antes do reino comunista, e Mann Kosal, o mestre dos fantoches, contaram suas estórias em frente das câmeras. O projeto pode soar às vezes como uma terapia de grupo, já que Keng Sen pediu aos participantes para relatarem aqueles momentos de suas vidas que eles já tinham enterrado profundamente em suas lembranças. Qualquer suspeita de voyerismo era reprimida imediatamente e uma atmosfera amigável de troca e confiança se desenvolveu rapidamente. “Participando desse projeto, os artistas cambojanos sabem que não podem escapar da narrativa de suas vidas. Eles se prepararam para isso”, explica Keng Sen. Ele mesmo se questiona sobre os limites dessas estórias e quão longe pode ir para pressionar os limites dos artistas. Falar sobre suas vidas é necessário para a criação do espetáculo. Cada artista interpretará seu próprio papel no palco. “Não quero nenhum espetáculo pós-moderno, isso é muito intelectual. Isso é a performance deles, a vida deles. Gostaria apenas de extrair sua pureza, artística e individual”, afirma Keng Sen.
No palco, nenhum figurino será muito pesado ou colorido: os artistas usam sarongs e lenços de seda Khmer: o cenário é minimalista e a luz, natural.
Para o diretor artístico, o processo é mais importante do que o resultado. Ele quer levar esses personagens feridos para a criação artística. “Quando você dança, você se expressa, escolhe estar aqui e dominar sua vida. A criação artística é como um músculo que precisa ser treinado”, acrescenta. Hoje em dia, restam apenas uns poucos artistas khmer, mas eles compartilham o desejo comum de reconstruir sua cultura khmer.
Ela dança tão naturalmente quanto respira
Todos os participantes desse projeto são professores na Escola de Belas Artes, no Teatro Nacional, em escolas particulares e associações. “Não é nada e os subsídios do governo são tão baixos que qualquer desenvolvimento mais profundo de nossos projetos, torna-se quase impossível” – diz um participante. Parece que a conservação de templos, com centenas de anos, para o turismo é mais importante para o programa do governo do que a preservação da sua herança cultural existente. “Mas Angkor sem dança, sem arte, sem vida, não faz sentido”, exclama Em Theay, a senhora de 69 anos que é a participante mais velha do grupo. Uma senhora pequena, com uma presença forte, cabelos brancos e olhos brilhantes – ela é o coração e a memória viva da dança tradicional khmer. Ela se juntou ao Palácio real como bailarina ainda muito jovem e aprendeu a tradicional dança khmer baseada no épico hindu, Ramayana. Além da técnica, seus professores incutiram nela o significado da arte. Cada movimento expressa um sentimento, uma ação. “Você precisa de um mês para dominar o movimento com sentimento”, explica enquanto faz uma demonstração. Quando Em Theay dança, ela não tem idade. Entretanto, como uma estrela, ela nos conta sobre suas inúmeras viagens pelo mundo nos bons tempos, quando ela acompanhava o rei. “Dancei na América para o Presidente Nixon, na Rússia, na Mongólia, na Tchecoslováquia, na Bulgária, no Japão, na França, na Inglaterra” – ela lista orgulhosa. “O que eu gostava como bailarina, é que eu ganhava muita atenção e muitos presentes”. Apesar de sua formação e treinamento em dança clássica, Em Theay é uma entusiasta em se tratando da criação de uma performance mais contemporânea. Keng Sen sugere a substituição do papel do macaco por um fantoche. Tradicionalmente, dança e teatro de sombras não se misturam. Entretanto, o fantoche de couro gigante tem uma presença forte no palco e seus gestos combinam perfeitamente com os passos dos bailarinos. Guiados por Em Theay, o grupo experimenta essas novas abordagens para misturar tradições. Convencidos, eles trabalham entusiasmados em sua nova coreografia. “Nós usamos o conhecimento de Em Theay para ajudar na evolução da dança tradicional. Muitas vezes, artistas criam com imprudência, sem possuir os fundamentos culturais necessários” explica Keng Sen. A renovação da cultura Khmer não pode vir separada de sua essência: dança como modo de vida.
Viajando de volta no tempo
Nós retornamos a Angkor Vat., ao terraço principal, onde Em Theay havia dançado em frente do rei. Seus olhos fixos no horizonte – ela interpreta o papel do gigante com equilíbrio e orgulho. Ela está vestida em um figurino de seda roxo, com um broche representando o Rei Sihanuk, colocado na lateral. Pouco a pouco, uma multidão se junta em volta da bailarina. Ela executa uma sequência de movimentos que seguem um ritmo perfeito e que estão naturalmente conectados. Não é necessário entender a mitologia do Ramayana, para ser enfeitiçado pela graça da bailarina. Em Theay traz a multidão para os dias em que não havia turistas em Angkor Vat. Quando os lagos eram cobertos por flores de lótus e os espectadores reais, ricamente vestidos, sentavam-se perto dos macacos, em robes de cor de açafrão, enquanto assistiam a performance. Todo mundo sentia a vibração dos tambores. Em Theay saúda seu público com um sorriso largo. Ao assistir Em Theay, começamos a compreender o tesouro que ela está guardando: a arte da dança Khmer.
O homem por trás do TheatreWorks
[Com sua silhueta elegante, com suas roupas pretas de marca, o ar de artista mal compreendido e uma ostentação de trabalhos pós-modernos em seu nome, o escritor e dramaturgo Ong Keng Sen tem todas as pompas de um dândi. Mas por trás do atraente personagem público, descobre Fanny Landrieu, encontra-se um homem brilhante, humano e profundamente sensível.]
Como estudante de direito na National University de Singapura, Ong já tinha um capricho – o teatro. Ao receber seu diploma, ele foi imediatamente para o TheaterWorks, uma companhia de teatro formada em 1985, focada profundamente em produções locais. Na verdade, seus primeiros trabalhos foram baseados mais em pesquisas cuidadosas do que na criatividade. Seus trabalhos eram extraídos principalmente de eventos sociais e políticos, como por exemplo, o conforto das mulheres do Japão na virada do último século (material para Broken Birds) e os trabalhadores indianos de Singapura (Workhouse Afloaf). Para ele, a pesquisa histórica caminha lado a lado com a criação artística e ele acredita que seja necessário alternar os dois.
“O ato da criação requer muita energia, é um esforço constante do corpo, das emoções e da mente. A pesquisa, por outro lado, é a aquisição de conhecimento, é preencher uma pessoa, o processo contrário”.
Promovido a diretor artístico do TheatreWorks em 1988, Ong fez uma imersão pessoal num estudo sobre sua identidade chinesa ímpar, urbana e aberta para o resto do sudeste asiático. Ele viajou, observando as diferenças culturais e religiosas entre os países da região. Seu interesse pelas artes tradicionais orientais cresceu juntamente com suas descobertas. “Hoje em dia, os jovens estão interessados em karaokê e Hollywood, e as artes tradicionais já não são mais populares. Foram reduzidas a uma matéria ensinada na universidade, mais uma técnica do que um modo de vida, com uma forte ênfase religiosa”. A arte de Ong nasce dessa observação: a arte tradicional possui uma “herança cultural”, um tesouro precioso que ele tenta capturar e adotar no palco.
Adaptar, não reproduzir. Ong aproveita a essência das artes ancestrais, o sentido tradicional de uma dança ou peça musical e onde e para quem elas são geralmente apresentadas. Daí, no palco, tudo é possível – todas as regras são dobradas ou quebradas, diferentes culturas são justapostas de uma maneira contemporânea, enquanto permanecem verdadeiras com suas origens. Certas peças – ou melhor – espetáculos – tais como: Lear, que estreou em Tokio em 1997 e Desdemona, que abriu o festival das Artes de Singapura, em 2000, ilustram bem suas idéias. Inspirados por Shakespeare, os personagens são representados por artistas tradicionais da Ásia, que dançam, cantam, representam, falam e se expressam em sua língua materna. Esses artistas representam a Ásia de hoje, uma Ásia que está se renovando com o seu passado para criar uma cultura moderna.
Uma arte militante
Se Ong parece obcecado pela cultura tradicional, é porque essa cultura está morrendo rapidamente. Em suas viagens pelas mais remotas partes do continente, ele encontrou artistas ansiosos por trocar e divulgar sua arte. “Como artistas, temos o papel de sensibilizar as pessoas. Estou fazendo lobby através de meu trabalho artístico. Se ninguém antecipar o falecimento que está por vir e se levantar para conseguir mudanças, nada irá se mover, como no caso do meio ambiente! Eu espero que os governos e as instituições internacionais compreendam o importante papel dos artistas tradicionais e sua responsabilidade em tomar providências”.
Ao escolher essa proposta, Ong posicionou o escopo do TheaterWorks para além de Singapura. “Em minhas peças, eu não falo sobre HDB’s (Housing and Development Board), liberdade de expressão ou censura” – temas que preocupam o público de Singapura. Os trabalhos de Ong embarcam em temas que atingem um público universal, dentro de um contexto global voltado para um teatro “internacional” adaptável tanto ao Oriente quanto ao Ocidente. Daí surge a solidão, que Ong sente de tempos em tempos – ele está sozinho no meio da comunidade artística de Singapura, sozinho ao lidar com esses assuntos que ele leva para tão perto do coração. “É por isso que trabalhamos regularmente com teatro e grupos artísticos de toda a região, para equilibrar esse sentimento de isolamento”. Como um tributo ao seu sucesso e qualidade, os trabalhos de Ong são reconhecidos nos mais importantes festivais de arte do Japão, Europa e EUA, para onde ele é convidado regularmente. A trupe do TheaterWorks passa uma boa parte do ano em turnê pelo mundo.
Motivação
Onde ele encontra motivação para continuar com seu trabalho, dia após dia? “Eu gosto do frescor de encontrar novos contatos. Quando encontro um artista pela primeira vez, é sempre uma nova descoberta. No dia em que não sentir mais a pureza desses momentos, vou parar de trabalhar”. É exatamente durante esses encontros especiais, que Ong se esquece do mundo do teatro, dos artistas e das viagens. Sua atenção se volta para as coisas simples.
“É como os macacos em Laos, pedindo seu sustento diário para o povo da vila. O importante é encontrar as conexões entre a vida e a criação artística. Você pode produzir um espetáculo que seja muito bonito e muito complicado, mas se ninguém entende sua relação com a vida, é um fracasso”.
Ficha técnica
Concepção e Direção: Ong Keng Sen
Performers Em They, Thong Kim Amn, Kim Bunthom, Mann Kosal
Iluminação recriada: Thomas Dunn
Vocais e músicas criados por Fukuoka Yutaka (Yen Chang)
Videografia Noorlinah Mohb
Produção Theatreworks (Singapore)
Produtor e Gerente de Turnê TAY TONG
Chefe de palco Lisa Porter
Gerente de Projeto Hoo Kuan Cien
Engenheiro de Som Jeffrey Yue
Tradução Kang Rithisal
Assistente de Palco Emily Hayes




